O contador Otávio Guimarães Filho fica completamente confuso com a pergunta. “Isso me lembra o primeiro susto que levei na vida”, diz. “Eu tinha seis anos, mas quando ouvi de uma tia que o mundo acabaria no ano 2000, corri para fazer os cálculos e percebi que morreria jovem demais, aos 21”. Hoje, com 29 anos, suas preocupações são outras. “O mundo sobreviverá a nós. E por mais que sinta as calamidades do Homem sobre a Terra, não creio na expectativa de vida que traçam os cientistas. Considero-os um tanto alarmistas”.
Segundo matéria publicada no jornal londrino The Times, em fevereiro deste ano, cientistas ingleses e americanos avaliam que o fim do mundo está próximo, e que até o ano de 2010 metade da população do planeta morrerá. Motivos: epidemias e catástrofes naturais.
O analista de sistemas Thiago Lucio Bittencourt, 33 anos, ironiza a análise. “Se for para acabar que seja rápido porque se até o fim do mundo demorar para acontecer será de extrema incompetência”. E continua. “A questão do aquecimento global é verdadeira, mas o fim do mundo... Está certo que muita coisa tem acontecido rapidamente, mas essa previsão de dois anos é um tanto exagerada. Os cientistas fazem isso porque precisam tentar reverter a tempo a situação... mas é certo que todos teremos mais tempo de vida”, diz.
Clara Souza, estudante, 19 anos, não tem a mesma certeza e se impressiona com tudo. “Aqueles terremotos na China foram horrorosos. É tanta tragédia que os noticiários nem mencionam mais sobre as Olimpíadas... Foram mais de 70 mil mortos e cerca de 100 mil feridos... até em São Paulo teve terremoto... Quando no Brasil se ouviu falar numa coisa dessas?”.
CULTURA DO “CARPE DIEM”
Por essas e outras é que Maurício Aguiar, 23 anos, analista financeiro na área de controladoria da Nissan, pensa mais do que nunca em aproveitar o tempo presente. “Não adianta temer o futuro. Façamos planos, vivamos o dia-a-dia da melhor forma. Se as previsões acontecerem, pelo menos viver terá valido a pena”, diz.
Para ele, é difícil cogitar que tudo acabará. “Alguns sempre sobrevivem, e em condições precárias, reconstroem. Nos próximos cinco anos, os efeitos de destruição serão mais notáveis nos elementos naturais: alteração climática, desastres naturais e eventos isolados. Desse modo não me sinto diretamente afetado”, diz. Também poluição, desmatamento e contaminações variadas. “Acho que com o tempo os efeitos dessas coisas na saúde serão cada vez mais intensas. E apesar das novas doenças e epidemias, o ser humano será obrigado a conviver com elas, e mesmo não acreditando que conseguirá se adaptar tão rapidamente a tudo, vencerá. Não importa a parte do mundo em que se esteja, a situação estará intrinsecamente relacionada à condição social das pessoas. Quem tiver maiores recursos financeiros ou bons planos médicos, tenderão a escapar”, diz Aguiar.
Daqui a cinco anos, o analista financeiro pretende estar no Canadá, estudando cinema. “É um sonho antigo”. Já a dentista Gabriela Pereira Gianni, 39 anos, espera morar em Londres nos próximos três anos. “Amo o Brasil, mas o mundo está em toda esquina... e eu pretendo vê-lo com sotaque inglês”, diz. “Quero o dia-a-dia, o resto não depende de mim”, acrescenta.
“O FUTURO A DEUS PERTENCE”
A musicista e desenhista Luciana Vannucchi de Farias, 37 anos, se define como uma otimista incurável. “Ainda acho que descobrirão meios de evitar com que tudo se acabe... pelo menos eu espero”, diz.
Mãe de duas filhas, ela procura fazer a parte dela nesse “processo de salvação”: separa material para reciclagem e ensina o mesmo para as filhas. “Também procuro conviver bem com as pessoas. No mais, se viver preocupada com o fim do mundo, não faço mais nada. Não sei o amanhã, se estarei aqui por muito tempo ou não. Procuro é viver a vida da melhor forma possível, um dia de cada vez, e pensando sempre que um futuro neste mundo será possível. E procuro passar essa positividade para as meninas”.
A professora de inglês e empresária Elaine Fonseca, 31 anos, procura também economizar água e evita jogar lixo em lugares inapropriados. “Educo os meus filhos mostrando-lhes a importância de se cuidar e cuidar do meio em que habitam para poderem viver melhor e com mais saúde. Tenho medo do futuro e por isso procuro bem viver o presente”, diz.
Entre os temores, Elaine receia que os filhos sofram de falta de ar crônica ou coisa pior: que implorem por água pura para beber. “Acredito em Deus e peço a Ele que tenha piedade do mundo, pois creio que o planeta esteja em perigo. Sinto as transformações ao meu redor. A pele está mais seca, os dias escuros e com ar pesado. A água, cada vez mais, tem sabor de cloro e cheiro de água sanitária...”
A professora constata que não haverá o fim do planeta. “Vivemos uma transição”, diz. O mesmo pensa a consultora imobiliária Débora Baccarin, 43 anos. “O mundo sofre transformações e adaptações como todo ser humano. Vivemos dois mundos paralelos – das pessoas conscientes e das que vivem na escuridão, na ignorância... para estas, certamente o mundo acabará; pelo menos o que para elas existe como verdadeiro. Final dos tempos, ou o ser humano acorda ou será consumido em sua própria ganância e falta de consciência”, diz.
Débora tenta ser uma pessoa melhor todos os dias. “Trabalho o meu lado espiritual. Mudo a minha vibração e os que estão em minha volta se beneficiam disto. Medito e acredito em Deus e em suas várias formas de manifestações. É daí que vem a força e a sabedoria para mudarmos toda e qualquer situação”.
“QUEM PLANTA VENTO, COLHE TEMPESTADE”
Círculo vicioso. “O mundo devolve o resultado de nossas próprias ações. Há situações que temos que passar, independentemente de nossa vontade ou escolha. Não temos como fugir. Em outras, traçamos o nosso destino”, acrescenta a consultora.
Para a estudante de 13 anos, Shari Baccarin Saber, filha de Débora,nada se reverte rapidamente. “O Homem tinha que começar a pensar no planeta desde já, porque o depois pode não existir. Mas para consertar o planeta, é preciso que antes algo ou alguém conserte o ser humano”.
Shari está no 8º ano, e embora adore as suas aulas de guitarra, não sabe o que o futuro lhe reserva. “Não sei o que serei ao crescer. Tudo muda rapidamente e até lá a minha cabeça já terá mudado muitas vezes, e as minhas idéias serão outras”, diz. Ela tem cinco anos para decidir. “Em tese”, acrescenta. Mas imagina a sua vida nos próximos 20. “Quero ser independente e ter um emprego que me sustente. Quero estar bem financeiramente, morando numa casa ou num apartamento bonito e confortável. Pode até ser que eu tenha uma família já... ou então, terei investido na música, e, quem sabe, terei uma banda. Não pretendo morrer nem daqui a dois, cinco ou 20 anos. Se morresse muito nova, talvez não desse para cumprir a minha missão aqui na Terra... seja ela qual for. O que também não dá é viver por viver”, diz.
ÚLTIMO DIA
(...) Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?
Andava pelado na chuva?
Corria no meio da rua?
Entrava de roupa no mar?
Trepava sem camisinha?
Meu amor
O que você faria?
O que você faria?(...)
Os trechos da composição acima são do cantor Paulinho Moska, mas representam exatamente as incertezas de vida do administrador Miguel Barbosa, 27 anos. “Planejamos tanto o futuro e sofremos tanto pelo passado que o presente sempre escorre por entre os dedos. E só em situações extremas ou quando não há mais jeito, é que as pessoas lembram que gostariam de ter feito, de ter sido, de ter dito o quanto amavam, gostavam, sentiam...”, diz. “É preciso estar atento aos princípios para não incorrer no erro de viver por viver... porque se fosse assim, frente à ilusão do fim do mundo, quem não tiver valores morais e educacionais passará a matar, a roubar mais e mais e mais... a agir de forma qualquer porque tudo estará fadado ao fim de um modo ou de outro”, acrescenta.
O analista de sistemas Thiago Bittencourt acha a situação exagerada. “O presente é pensar mais no agora, ou seja, não deixar para fazer amanhã o que se pode fazer hoje. Não é o sujeito que ao invés de ter dois gatos, por exemplo, resolve comprar todos os gatos do Estado e rouba um banco para mantê-los e foge numa BMW qualquer dando tiro para o alto... isso é manicômio mesmo. Viver o presente é curtir pequenos momentos porque no mais resta-nos ser espectadores. Antes do mundo acabar, outros cientistas – alemães, russos e também americanos – garantem que seremos todos ‘marcados’ com chip... o que substituirá os cartões de crédito e coisa a tal... Vejo tudo com muito cuidado pois o fanatismo é outro pecado pra mim. Que venha a vida”.
E o mundo? “Que viva o seu último dia como se restasse um só todos os dias”, finaliza.